Natal é uma festa de
que não gosto. Definitivamente não gosto do natal.
Como sempre queremos encontramos
desculpas para as nossas frustrações e eu também não fui diferente para o caso da
minha falta de atenção para o natal. Descobri por mim mesmo que em alguns casos
nem precisamos recorrer aos profissionais da mente para encontrar a resposta que
procuramos.
Relembrando Balsas do
final da década de 60 e início de 70 pude constatar de fato o que ocasionou minha
frustração. Na época, a rua Catumbi era puro areal. Areia desde o colégio
Luis Rego até a casa do Joca da Otília. Cinco coisas havia em excesso naquela
rua: passa-raiva, manga, melão de são Caetano nas cercas de talo, caju-banana
no quintal da Dona Dos Anjos do Joaquim Rocha banana e areia. Com a areia da
rua Catumbi daria pra construir muitos prédios. Hoje as coisas são
diferentes: a rua Catumbi já tem um outro nome, Edísio Silva; passa-raiva hoje
é mamão; manga só em feira; melão de são caetano o povo não sabe mais o que é;
caju-banana está igual as sete estrelas no mês de maio, quem vê, morre.
Bom, e o meu natal?
Não estou esquecido dele, não!
Como de costume,
dormíamos em rede. Havia camas, porém, ninguém agüentava todo aquele calor e a
rede era o ventilador do pobre. Usamos a rede o ano inteiro. Em Balsas, as
estações do ano são muito bem definidas: verão, inverno, calor e mormaço. Acredito até que os
ricos também dormiam em tipóias. Naquela época, a energia era a motor e só
funcionava da boquinha da noite até as dez horas, por isso não havia
ventilador, muito menos ar-condicionado.
Minha avó materna,
Esmeralda Bucar, gostava muito de falar sobre as coisas que acreditava. Uma
delas era o Papai Noel. Falava com tanto entusiasmo como se ele fosse um
personagem bíblico. Mulher de uma fé católica inabalável. Dizia
com todos os detalhes de que era conhecedora de que o tal Papai Noel vinha da
terra de Jesus, montado em burros. Aqui cabe um pequeno esclarecimento: talvez
ninguém em Balsas conhecesse as tais renas e o trenó de Papai Noel. E como o
balsense sempre tem um jeitinho, pra não fugir da brasilidade, arranjou-se burros
e a carrocinha para que o Natal dos balsenses não ficasse de fora da rota do
Papai Noel.
Dizia minha avó que
nós deveríamos ser bons meninos durante o ano para merecer o presente de natal,
trazido pelo maior representante desta festividade. Como se não bastasse esse
sacrifício, teríamos que dormir mais cedo, limpinhos da silva, sem antes ter o
cuidado de deixar embaixo da tipóia um maço de capim para os burros do Papai
Noel.
Era véspera do natal.
Havíamos cumprido praticamente todas as exigências que foram impostas durante o
ano inteiro, tomamos banho, eu e meu irmão Kaaled, colocamos o maço de capim
debaixo da rede e pronto: formos dormir sonhando com o dia seguinte. Quais os
presentes que o Papai Noel nos traria? Seria um carrinho? Uma bola? Quem sabe!
Confesso que dormir mesmo era difícil. Passava a noite tentando dar o flagra em
Papai Noel. Talvez o meu maior desejo nem fosse mesmo receber presente.
Acredito mesmo ser o de ver de perto Papai Noel. Seria o máximo na vida poder
ver de perto uma figura tão propalada no fim do ano! Queria sentir a sensação
de poder enxergar o bom velhinho e talvez lhe fazer algumas perguntas. Confesso que a figura de Papai Noel me
intrigava bastante. Queria saber quem realmente era ele? Por quê fazia todo
aquele esforço? O que movia esse sentimento de bondade por parte dele? Tudo
isso me intrigava. E me intrigava mais ainda quando minha avó o associava às
coisas da igreja, dando ao Bom Velhinho um ar de santidade.
Enfim chega 25 de
dezembro. Acordei sendo chamado por meu irmão Kaaled que já estava de pé ao
lado da rede. Vi-o espantado, triste e ao mesmo instante soltando algumas
risadas pouco representativas da situação. Ele logo foi me falando:
- O Papai Noel não
veio.
- Como não veio?
- Olhe debaixo da
rede.
Vi o capim intacto, do
mesmo jeito que havíamos deixado. Nenhum presente sequer. Colocamos a mão no
queixo e começamos a nós cobrar.
- Será que nós fizemos
alguma coisa errada?
- Talvez sim. A gente
é que não está lembrando.
Saímos do quarto de
fininho e fomos para o meio da rua. Lá estavam os meninos dos vizinhos curtindo
os seus brinquedinhos de natal. Meu irmão fala logo.
- Ele passou na casa
dos vizinhos e não veio aqui em casa!
Eu lhe fiz uma
pergunta que naquele momento parecia fazer sentido.
- Será que não entrou porque
não deixamos a janela aberta? É; é bem possível que sim. Também, você colocou a
tramela na janela. Como é que Ele iria entrar?
Pronto. Começamos ali
mesmo uma discussão.
Meu pai, Antonio
Carlos, ouvindo a conversa meio de longe completa na linguagem do balsense:
- “Mar moço, Ele passou bem-í e num vêi aqui?”
Bom, resolvemos
esperar o ano seguinte. Desta vez não teria como não dar certo. Tentamos ser os
melhores garotos, fomos mais vezes à igreja, tomamos banho bem mais demorado,
colocamos os melhores capins que pudemos encontrar e deixamos a janela aberta,
sem antes rezar o Rosário completo com minha avó Esmeralda. Tudo pronto, só
faltava o dia seguinte. Já muito zonzo
de sono pela reza sem-fim me pus a dormir. A certeza era tanta
que não haveria mais nenhuma dúvida de que naquele ano o Papai Noel passaria na
rua Catumbi, nº 369.
Acordamos muito cedo e
desta vez não esperei que meu irmão o fizesse primeiro. Ao abrir os olhos já
virei o rosto para verificar embaixo da rede o meu presente de natal. Tinha
tanta certeza de que ele estava lá que estiquei meu braço para alcançá-lo.
Peguei em algo bastante conhecido por mim. Decifrei logo de cara o presente que
havia sido deixado ali. Era o bendito capim que eu mesmo deixei. Papai Noel
mais uma vez não havia cumprido o trato: nós seríamos melhores cristãos e Ele
nos traria presentes!
A decepção da minha
parte foi tão grande que não quis passá-la ao meu irmão. Sabia que ele não
agüentaria mais uma vez essa desfeita de Papai Noel. Desci da rede, olhei por
todos os cantos para ver se eu mesmo não estaria enganado. Talvez na esperança
de que o presente estivesse em outro canto do quarto. Nisso meu irmão acorda,
levanta-se de um salto só e pergunta.
- Onde estão os
presentes?
Nem sequer tive
coragem de responder. Havia tanto desgosto e emoção naquele momento que hoje,
tantos anos depois, ao lembrar da cena tive que parar de escrever por alguns
instantes em razão das lágrimas que brotaram independentes do querer. Já refeito
da emoção, lembro-me de que a primeira atitude que meu irmão teve foi de correr
para o meio da rua. Lá estaria a prova maior de que Papai Noel não nos ouviu.
Os meninos todos alegres. Uns chutando bolas, outros puxando os carrinhos.
Confesso que desta vez me deu pena do meu irmão. Não agüentando a decepção logo
ele solta toda a sua raiva e aos gritos falou:
- Esse Papai Noel
filho-da-puta passou na casa de todo mundo e não passou de novo aqui.
Foi um espanto só. Minha avó ficou paralisada com tamanha falta de
respeito àquele que para ela seria talvez um santo. E dirigindo-se a meu irmão
de forma a repreendê-lo disse:
- Você tenha mais
respeito com Papai Noel. É por isso que você não ganha nada dele.
Meu pai, com a cara
mais sem-vergonha do mundo, põe mais lenha na fogueira:
- “Ô bicho ruim esse tal Papai Noel. Vêi bem-qui
na casa da Maria Reis e num passô aqui de novo. Mar moço, será mermo o que terá
acontecido?”
Não sei o que
aconteceu, porém, daquele dia em diante em passei a odiar o tal Papai Noel.
Talvez seja por isso que não sinto prazer algum no Natal.
Essa mesma experiência
deve ter sido experimentada por muitos balsenses que conheci.
Mesmo assim, superando
aos poucos esse trauma, hoje sou capaz de desejar a todos vocês balsenses ou
não, UM FELIZ NATAL.